quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A “CHEIA GRANDE” de 7 de DEZEMBRO DE 1876

(Uma Cheia em Torres Vedras nos anos 40, na "várzea" - Foto Estúdio)

Até há poucos anos, antes das grandes obras de regularização do rio Sizandro, realizadas depois da catástrofe de 1983, a zona baixa de Torres Vedras sofria quase todos os anos, pelo inverno, o incómodo das cheias, umas maiores que outras. Aquela que ficou na memória colectiva por mais tempo foi a chamada “Cheia Grande” de 7 de Dezembro de 1876.

Teve origem na forte precipitação que se registou em todo o país, tendo originado a maior cheia histórica do rio Tejo, com um caudal que só seria ultrapassado em 1997, e que foi a mais devastadora de sempre na região do baixo Tejo (1). Nesse dia também o rio Guadiana registou  a maior cheia da sua história.

Em Torres Vedras o rio Sizandro atingiu um nível de cheia nunca visto anteriormente e que foi um dos maiores até 1983. A situação que então se viveu neste concelho foi referida por  vários autores coevos, como Pinho Leal:

 “(…) Ainda com os temporaes do inverno de 1876, [o rio Sizandro] cresceu tanto, que causou graves prejuïzos nas terras das suas margens . Em 30 [?] de dezembro  d' esse anno, se viu passar pelos sitios da Ponte do Rol , uma cavalgadura morta , arrastando, preso por um pé ao estribo , um homem tamb6m morto.

“As chuvas torrenciaes do inverno de 1876 causaram grandes prejuizos n’esta villa.

“0 Sizandro, que muitas vezes secca completamente na estiagem, cobriu de agua todas as varzeas das suas margens.

“Todas as casas na baixa da villa  foram abandonadas . A gente pobre foi recolhida no hospital , onde lhe deram alimento e agasalho. Muitos habitantes foram salvos às costas por pessoas dedicadas e transportados em carros para sitio seguro. Andaram empregados n’este serviço , sete carros, generosamente emprestados por varios particulares. Os empregados da administração do concelho foram salvos do mesmo modo.

“Houve scenas afflitivas . No largo da egreja de S . Miguel , ha umas barraquinhas que serviam de abrigo a uma pobre gente. Quando lhe accudiram dava-lhe já a agua pelos peitos . Imagine-se a sua afflicção.

“Os prejuizos foram grandes em vinho , azeite, milho , etc . 0 campo da Feira Nova, às portas da Varzea, ficou todo inundado, padecendo immenso os numerosos armazens que alli há . No lagar do sr. Augusto Miranda, a cheia fez grande destroço; a rua da Olaria , onde elle esta estabelecido, parecia um rio de azeite. No armazem do sr. Fivelim, na rua Nova , os cascos e pipas de vinho andaram boiando. A agua n’esta rua chegava à bocca do forno de pão que aIli há .

“Ameaçavam ruina varias casas, entre outras a do sr. João dos Reis , edificada recentemente , onde morava o Sr. Schiappa, conductor das obras publicas ; a do medico, o Sr. dr . Mauricio, etc .

“Estas inundaçoes teem-se repetido com frequencia, todas as vezes que o Sizandro, de humilde ribeiro, se torna um rio furioso, sahindo do seu leito  alagando as suas margens, e causa de grandes destroços e ruinas .

“Em 1876, subiu em alguns pontos a altura de trez metros .

“O lençol d' agua estendia-se pelas varzeas do Arial , Ramalhão, Maxial e Ermigeira até Villa Verde, n’uma extensão de cerca de 15 kilometros ; proximo d’esta ultima povoação morreu afogado um rapaz que andava apascentando gado.

“A importante povoação da Merceana , situada ao sul e nas faldas da serra de S . Matheus, esteve prestes a submergir-se .

“Na estrada que vae de Monte Redondo para a Ermigeira , abateu o muro da tapada da quinta das Lapas, n' uma grande extensao, ficando impedido o transito.

“Na quinta de Ermigeira, propriedade do sr. visconde de Balsemão, foi completamente destruido um importante encanamento de agua na extensao de 500 metros”(2) .

António Batista da Costa, autor de uma monografia manuscrita inédita, “Memórias de Torres Vedras”, escrita no inicio do século XX, também escreveu, de memória, sobre o efeito da cheia de 1876, classificando-a como a “maior cheia que visitou Torres Vedras, desde de tempos conhecidos (…)”, descrevendo os seus efeitos:

“Toda a vila baixa fôra inundada, chegando a agua à Praça do Município, a S. Pedro, ao Largo do Rozario, etc, etc.

“Foi no sitio denominado a Porta da Varzea, onde a agua atingiu a sua maior altura, correndo risco a vida d’algumas famílias que ali moravam, as quaes foram salvas  pelo benemérito cidadão Victorino Pereira da Costa, que então exercia o cargo de Secretário da Administração do Concelho, e outros cujos nomes não me ocorre.

“Muitas creaturas reciosas de que a cheia aumentasse e tomasse outras proporções invadindo as suas habitações, por quanto a noite continuava sob o mesmo aspecto tempestuoso, abandonaram-nas , ouvindo-se ais e gritos  de angustia e de aflição que, ecoando por entre o sussurro murmurado e patético das aguas, causava um certo pavor, ainda aos mais animosos. Essa gente deveras apavorada com o aspecto tenebroso que a cheia ía tomando, pois que até às 2 da madrugada ainda chovia torrencialmente, dirigiu-se ao Hospital [da Misericórdia, junto à Igreja da mesma instituição], afim de ali encontrar guarida, a qual lhe fôra pronto e generosamente dada pela sua ilustre direcção, ficando ali umas três noites”.

O autor refere que, “na actualidade”[por volta de 1915] “esse mal”, das inundações do Sizandro que invadiam a zona baixa da vila, “desapareceu um pouco”, dado que se tinha procedido a sucessivos aterramentos , “atingindo n’alguns pontos a altura de 2 metros, pouco mais ou menos” (3).
(Cheia na "Corredoura" em 1943 - Fotografia de Emílio Costa) 
Aliás, logo nos dias a seguir à trágica cheia, o executivo camarário tomou medidas para atenuar a situação, convidando “o conductor d’obras Publicas Jorge Arthur Scchiappa Monteiro para estudar o meio de evitar que as aguas , que caém dos montes do sudueste desta villa, atravessem esta”, e dirigindo “uma representação ao Governo de Sua Magestade pedindo-lhe a Egreja de S. Miguel e casas juntas, que estão em completa ruina para tudo ser demolido, a fim do material ser aproveitado tanto no atterro da parte mais baixa do citio de S. Miguel como na ponte e outras obras que são de urgente necessidade fazer-se junto ao rio Sizandro, próximo à mesma Egreja” (4).

Dias depois, o mesmo executivo, “considerando o imenso prejuízo que soffre a rua da Olaria, pelo facto de por ella passar em caudaloza torrente a agua que corre das montanhas a sudueste da villa; e reconhecendo a impreterível necessidade do seu imediato desvio, deliberou convidar o Ill.mo Sr. Francisco de Borja, a fim deste cavalheiro declarar se consentia que pella sua propriedade da Graça se effectuasse aquelle desvio d’aguas” tendo esse proprietário anuído “com condição” de ser indemnizado pela câmara  “dos prejuízos que sofresse, o que esta  acceitou”(5).

Fica aqui retratado, em jeito de reportagem, um dos acontecimentos mais marcantes registado na memória colectiva dos habitantes de Torres Vedras.

1 – ver LOUREIRO, João Mimoso, “Rio Tejo –As Grandes Cheias – 1800-2007”, colecção Tágides, ed. ARH do Tejo, Lisboa 2009 (versão disponível na internet);

2 - LEAL, Pinho, “Sizandro” in PORTUGAL ANTIGO E MODERNO vol . IX, 1880 pp . 405 ; 661—662;

3 – COSTA, António Batista, “Memórias de Torres Vedras”, manuscrito inédito, AMTV, [1915?], folhas 15 e 16;

4 – Livro de Actas da Câmara, sessão de 9 de Dezembro de 1876, ff170 e170v;

5  Livro de Actas  da Câmara, sessão de 26 de Dezembro de 1876, f.171 verso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Uma Praça no “centro” de Torres Vedras


Durante séculos, até meados do século XIX, a “Praça do Município” foi um dos largos mais movimentados de Torres Vedras, talvez mesmo o “centro” da vida local.

Ainda na segunda metade do século XIX os anotadores de Madeira Torres confirmavam a sua importância, referindo  ter  “esta villa a sua praça no centro, ainda que pequena, segundo o costume das terras antigas” (1).

 Muitos outros largos existiam na então vila, mas sem a importância daquele, posição que seria apenas disputada pelo Largo em frente à Igreja de S. Pedro.

Essa centralidade só lhe terá sido arrebatado pelo popularmente conhecido “Largo da Graça” em finais do século XIX.

Um dos aspectos que contribuiu para a importância do Largo do Município foi o facto de aí se localizar o edifício municipal.
 
Existindo poder municipal em Torres Vedras documentado desde o século XIII, como se comprova por documentos de 1226, uma escritura de doação ao convento de Penafirme, com referência a cargos municipais (pretor, alvasi e conselheiro), e outro de 1235, primeira referência ao selo do  concelho, confirmado   pelo foral de 1250, é só em 1337 que existe referência documental ao edifício dos Paços do Concelho.

Segundo Ana Maria Rodrigues, na  Idade Média esse largo constituía “ como que o alargamento da Rua de S. Pedro na sua extremidade final, albergando o Paço do Concelho e o Pelourinho” (2).

A partir do século XVI são várias as referências ao edifício municipal

Em 1591 um alvará régio, datado de 4 de Agosto, autorizava o lançamento da finta até 200 mil réis, destinados a restaurar o edifício da câmara e, poucos anos depois, em 1597, em sessão camarária de 1 de Fevereiro, decidiu-se chamar o povo da vila e do termo, representado pelos juízes de vintena, para aprovarem a aplicação de 100 mil réis das sisas para a reconstrução do edifício, “porquãoto as rendas do concelho são tão poucas que não bastão para as ditas obras”. Estas já se tinham iniciado, mas estavam “em perigo de cairem de todo”. Os representantes do “povo” concordaram todos com essa despesa em sessão ocorrida no dia 8.

Em 22 de Fevereiro a camara elege um tal João Pinto para depositário daquela quantia. Cerca de um ano depois, na sessão de 10 de Janeiro de 1598, fica a saber-se que as obras estavam quase acabadas, faltando ainda concertar a casa de audiências.

 Em 1634, por provisão do desembargador do paço desse ano, autorizou-se a aplicação de 95 mil réis do depósito dos bens de raíz para obras na cadeia.

Deste edifício municipal quinhentista não existem vestígio e, a existirem, devem estar a bastante profundidade já que, como refere Júlio Vieira, devido aos terrenos aluvianos em que assenta o centro histórico, foi frequente o “alteamentos das ruas da vila (…) que se estendeu à própria praça do Município” (3).  

Um poço descoberto no início  deste século confirma essa situação, dada a profundidade a que se começaram a recolher objectos nesse poço, existente num pátio a norte do actual edifício municipal, objectos datados  desde o século XV, mas com principal incidência nos finais do século XVI, princípio do XVII, destacando-se várias peças de olaria, muitas intactas, que ao longo do séculos foram lançadas naquele poço.

Mas a existência do edifício municipal não foi o único que caracterizou a vivência do largo.

Nele existiu a Estalagem da albergaria de S. Brás, referida num documento de 1387 .

Também aí se situava a Capela de Santo António , situada frente aos paços do concelho, “nas casas fronteiras da parte sul, pertencentes então a Miguel Ignácio da Silva Lobo” que servia para dar missa aos presos. Servia também de passo da irmandade dos passos.

Aquele proprietário obteve licença para derrubar aquela capela “com a condição de fazer defronte da Misericórdia, à sua custa, um novo Passo (…) como fez, mudando para alli o que estava na dicta capella” em 1809 (actualmente é um dos Passos da Procissão do Senhor dos Passos, localizado frente à Misericórdia).

Numa provisão do cartório da Igreja de S. Pedro, de 21 de Maio de 1647 é referenciada como “capela de Santo António da Graça” (4).

No século XVIII o largo ganhou as características actuais, na sequência do incêndio que destruiu o edifício municipal.
 
Muitos autores referem o ano de 1744 como o da data desse acontecimento, mas um documento recentemente encontrado pelo Dr. Carlos Guardado permite datar esse incêndio  no dia 29 de Setembro de 1745.

O incêndio foi ateado por um preso, para se evadir.

O preso em causa era “filho do serventuário do officio de escrivão dos orphãos, que então era João Franco da Costa”.

Para pagar os estragos e a reconstrução do edifício, procedeu-se ao “sequestro na legítima do incendiário, na mão de seu pae”, processo que ainda decorria em 1776 (5).

Nesse incêndio arderam os arquivos mais antigos do concelho, salvando-se o foral manuelino de 1510, cartas régias assinadas por D. Sebastião e pelo cardeal D. Henrique, e os livros de acordãos posteriores a 1572

Após o incêndio iniciou-se, em Julho de 1752, a reconstrução do edifício, para a qual se arrematou “a obra de pedreiro por 160$ooo réis, e a de carpinteiro por 274$000 réis”, obra terminada em 1776 (6). 

Data dessa obra a colocação de um chafariz no largo, assim descrito por Júlio Vieira:

“Tem uma frontaria de um andar, com quatro pequenas janelas de ressaibo pombalino, únicas nesse género, que existem nesta vila”(7).
 
Possui uma original escultura de um peixe lavrada num único bloco de mármore e, na base, a data de 1775, diferente da data na inscrição em cima.

 Recebia agua de um “ramal subterrâneo do aqueduto do Chafariz dos Canos, do qual se aparta em frente ao mercado do peixe”, nas traseiras da Igreja de S. Pedro (8).

Inclui umai nscrição onde se pode ler:

“Governando El-Rei D. José I, Pae da Pátria, para commodidade da cadeia, e do povo, o corregedor da comarca fez edificar esta fonte à custa do público no ano de 1776”(9) [era então corregedor da comarca Joaquim José Jordão]

É encimado por um curioso “escudo em forma de coração (…) no centro do qual estão duas torres inclinadas semelhantes às antigas insígnias das armas da vila do Chafariz dos canos” (10).
 
Ao longo dos tempos o edifício municipal desempenhou várias funções, para além de sede do poder local.

No primeiro andar era sala de audiências e no segundo andar a sala de sessões da Câmara e cartório (segundo anotadores de Madeira Torres);

Nele funcionou a prisão e o Tribunal de Comarca até 1887, foi depositário do arquivo histórico municipal até aos finais do século XIX, foi escola municipal entre 1890 e 1903 e o primeiro quartel dos bombeiros entre 1903 e 1934.
 
A cadeia já funcionava aí em 1598, data de um acórdão de 29 de Janeiro desse ano, onde se refere a entrega de 24 presos.

No século XIX a cadeia era descrita como tendo  “além da enxovia (…) dois andares, constando o primeiro da chamada  sala livre, e o segundo de dois quartos, que servem de prisão para mulheres, e nesse mesmo andar existia o segredo, que é um pequeno quarto dom pouca claridade”.

A porta de entrada e “habitação para o carcereiro”, ficava do lado da “rua do Espírito Santo”.

“Antigamente” o carcereiro era nomeado pelo alcaide-mor e recebia de ordenado 24:000 réis.No séc. XIX era nomeado pela Câmara, e recebia de ordenado 12$000 réis” mais “carceragens” (11).   

Associado à cadeia, estava o pelourinho que aí esteve até ao principio do século XIX .
 
É referido pela primeira vez em 1430 e tinha “as armas reaes na columna, e em cima dois varões de ferro em cruz com argolas na extremidade dos quatro braços, e estes revirados em fórma de farpa” (12).

Poucos dias depois de ser reparado, foi deitado abaixo, em 13 de Maio de 1852, por ordem do administrador do concelho Maurício José da Silva, por considerar que estorvava a passagem da comitiva da rainha D. Maria II, cuja visita ocorreu a 1 de Junho.

Durante anos não se soube do seu paradeiro, até ser descoberto por Leonel Trindade uma parte do seu fuste.

Esteve exposto no Museu Municipal, no tempo em que este esteve instalado no antigo hospital da Misericórdia.

Por decreto de 11 de Outubro de 1933 o que resta do antigo pelourinho foi classificado imóvel de interesse público e, no princípio do século XXI, por ocasião das obras de remodelação do edifício e do espaço envolvente, o fuste do antigo pelourinho foi recolocado no largo, como memória.
 
Aquele largo foi, ao longo dos tempos, um dos mais movimentados e dinâmicos centros da vivência colectiva torriense.

Na Idade Média, na a zona do largo do Município existiam  “vários artesãos e comerciantes” que  “exerciam o seu mestre e vendiam os seus produtos. Era esta, sem dúvida, a parte mais animada e concorrida”, segundo Ana Maria Rodrigues (13), que encontrou referências a ferreiros, mercadores, correeiros, tecelões e tecedeiras, sapateiros e “até mesmo um estalajadeiro”.
 
Na idade média apenas se refere a “praça” aí existente. Só mais tarde existem referências à “praça de víveres”. Era uma praça diária de hortaliças, frutas e comestíveis.

Ana Maria Rodrigues considera provável que, para além daquela praça diária, já houvesse um mercado semanal na Idade Média, “realizado na Praça, onde os aldeões das redondezas vinham, de vontade própria ou à força, vender os produtos da sua lavoura” (14).

Aos domingos estendia-se pelas ruas laterais.

No mercado dos domingos, no séc.XIX, aí se vendiam “muitos generos de cereaes e outros comestíveis, bem como de loiça, junco, cousas estas que ainda não há muitos anos alli não appareciam”(15).

A primeira referência conhecida a um mercado semanal naquele sítio data de 1736, realizando-se à 3ª feira. A Câmara quis mudá-la para o Largo da Graça, por ser este lugar mais espaçoso, por concessão de 24 de Maio de 1792.

Um outro momento ligado àquele largo era a Quebra do Escudo, solenidade que se realizava por ocasião do falecimento de um monarca.

A cerimónia tinha inicio nos Paços do Concelho, de onde saia um cortejo, acompanhado pelas autoridades, pela “nobreza” e pelo povo.

À frente ía a cavalo  “a pessoa principal”, com uma “bandeira de luto que arrastava pelo chão”, seguido de três vereadores, cada um transportando três escudos com as armas reais.

O cortejo, acompanhado de carpideiras, parava em três lugares públicos onde se procedia à quebra do escudo, que simbolizava o fim do reinado (16).

As principais visitas régias documentadas da história torriense incluíram como um dos principais momentos solenes a passagem da comitiva por esse largo, como aconteceu com a visita de D. Pedro V em 16 de Junho de 1859. O rei D. Pedro V e a rainha Dª Estefânia, eram acompanhados pelo Príncipe de Gales e, depois de se realizar missa na Igreja de S. Pedro a comitiva real deslocou-se aos Paços do Concelho “para tomar uma refeição, que na véspera para lá havia sido mandada do Real Palácio de Mafra, e ahi acharam SS. Mag. Tudo preparado, e em parte por prevenção da Camara Municipal, que lhes offereceo também o refreco d’uma boa cobertura de dôces”.

No ano seguinte, em 1 de Setembro de 1860, vindo de Peniche, o mesmo monarca fez uma curta paragem em Torres Vedras, para “uma breve refeição” nos Paços do Concelho (17).

A última visita de um monarca a Torres Vedras foi ade D.Manuel II, em 21 de Agosto de 1908, por ocasião das Comemorações do Centenário da Batalha do Vimeiro.
 
Depois do almoço no Casino, o rei e a sua comitiva deslocaram-se a pé, pelo meio da multidão que o aclamava, até aos Paços do Concelho, recebendo aqui as “felicitações da câmara municipal numa alocução lida pelo presidente do município” o Cónego António Francisco da Silva. Depois dos discursos oficiais, o “ povo, com consentimento de EL-Rei, invade a Casa da Câmara e passa respeitoso ante o trono, beijando a mão de Sua Majestade, que a todos acolhe com o seu habitual sorriso de bondade”, enquanto que  no largo duas bandas tocavam o hino nacional e os bombeiros faziam a guarda de honra” (18).

Mas aquele largo, pelo seu simbolismo, foi também o palco de várias movimentações populares.

Em 1 de Março 1599 foi o centro de um motim popular, devido à nomeação do guarda-mor.

Um outro motim popular ocorreu em 9 de Fevereiro de 1868 e ficou conhecido por “batalhôa”, sendo um reflexo local da conhecida revolta da “janeirinha” contra o aumento de impostos.

A população enfurecida, parte oriunda das freguesias rurais, invadiu a travessa da Olaria, onde estava instalada a sede da administração do concelho e a repartição da fazenda, queimando os seus arquivos.

De seguida dirigiram-se para os Paços do concelho com o mesmo objectivo.

A revolta acabou junto ao município “pela persuasão com que os membros da  câmara aí presentes” defenderam o arquivo, que assim escapou a ser queimado (19).

As grandes manifestações da República e do Estado Novo tiveram igualmente aquele largo como palco, como aconteceu com a “manifestação de desagravo” pelos “acontecimentos no Estado da Índia Portuguesa” ocorrida em  24 de Julho de 1954, e assim descrita pelo “A Voz”:
 
“Ontem, na Praça do Município, grande multidão, tendo à frente os estandartes de todas as colectividades e organismos locais, a banda de música dos Bombeiros Voluntários e vários dísticos com frases patrióticas concentrou-se, às 16.30, a fim de manifestar o seu veemente protesto pelo afrontoso atentado de Dadrá” (20).

Na manifestação de aclamação do 25 de Abril de 1974 foi mais uma vez um dos lugares escolhidos para o seu percurso e continuou a ser o principal centro de manifestações e acontecimentos políticos enquanto aí esteve sedeada Câmara Municipal, até à inauguração do novo edifício na Av. 5 de Outubro, em 31 de Março de 2006.
 
Apesar de alguma decadência pela retirada dos serviços do município daquele local, tem vindo a recuperar, pouco a pouco, alguma vivência social e, principalmente cultural, continuando a ser um dos espaços mais apreciados pelos torrienses.

(Nota: um resumo deste texto foi publicado na passada edição do jornal “Badaladas” de  25 de Novembro de 2016, na série “Vedrografias”. Por sua vez, a versão que aqui se divulga é um resumo de uma comunicação oral inédita apresentada numa sessão de “Sopa de Pedras”, realizada em 16 de Março de 2012. As notas em baixo são ainda um esboço das anotações correctas, mas que penso que são perceptiveis por todos os que se interessam pela história torriense)

(1)    - anotadores  de Madeira Torres – p.13, parte Histórica, 1862;

(2)    -Ana Maria Rodrigues, p.147-148;

(3)    -Júlio Vieira;

(4)    -Fontes: Júlio Vieira, anotadores MT, Carlos Guardado;

(5)    -anotadores Madeira Torres, p.14, parte Histórica, 1862;

(6)    -anotadores MT, 1862, p.14;

(7)    - Júlio Vieira;

(8)    - Júlio Vieira, p.143;

(9)    -proposta de tradução dos anotadores de MT, p. 15, 1862;

(10)                       - Júlio Vieira, p. 142;

(11)                       - anotadores de MT, p.15, 1862;

(12)                       - anotadores MT, p16, 1862;

(13)                       - Ana Maria Rodrigues, pág.148;

(14)                       –Ana Maria Rodrigues, pág.328;

(15)                       -anotadores da parte económica (manuscrita) de Madeira Torres, 1865;

(16)                       -segundo Júlio Vieira, pp.302-303;

(17)                       - anotadores MT,p.55, 1862;

(18)                       - in O Occidente, nº 1068 de 30 de Agosto de 1908;

(19)                       -Júlio Vieira, pp.304-305;

(20)                       -A Voz de 27 de Julho de 1954.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

TORRES VEDRAS E AS MANOBRAS DA 1ª DIVISÃO – OUTUBRO DE 1916


(O general Pereira D'Eça no comando da 1ª Divisão, durante as manobras militares de Outubro de 2016 . Fotografia de Joshua Benoliel na Ilustração Portuguesa , nº555 de 9 de Outubro de 1916)
 
Em Março de 1916 Portugal entrava oficialmente na Primeira Guerra, apesar de já estar envolvido nela desde 1914 na frente Africana.
De imediato se iniciou a mobilização militar e a preparação das tropas para participarem na frente europeia.
Uma das iniciativas com maior impacto na região de Torres Vedras  foi a realização de manobras militares da 1ª Divisão, com cerca de 20 mil homens, comandada pelo General Pereira D’Eça, em Outubro, mostrando a importância militar que a  região ainda tinha, por via das Linhas de Torres Vedras e do caminho-de-ferro.
Um dos momentos altos dessas manobras foi a realização de exercícios de combate junto do Vimeiro.
David Salsa, repórter de “A Capital” descreve o ambiente que se vivia na vila, na véspera da chegada da primeira coluna e do comando da 1ª Divisão, em 7 de Outubro : “na avenida que liga a estação do caminho de ferro ao centro da villa, deparei com um pequeno grupo de officiaes do estado maior. Andavam escolhendo edifício próprio para instalação do quartel  general que dentro em breves dias ali deve chegar.
“Os mesmos officiaes percorreram differentes armazéns e barracões que servissem a arrecadação de subsistências estando também na estação do caminho de ferro, onde o movimento de mercadorias, devido á próxima chegada das tropas, augmentou consideravelmente”, anunciando também que “algumas praças da secção de quartéis de cavallaria 4” estavam acantonados próximo do Turcifal, preparando-se para avançar para Torres Vedras no dia seguinte. (1).
Nas páginas do jornal “Vinha de Torres Vedras” refere-se o inicio da entrada das tropas da 1ª Divisão em Torres Vedras:
“No dia 8 chegaram a esta vila dois pelotões  do primeiro esquadrão de cavalaria 4 , dois do segundo com respectivo estado maior (…) e uma secção de exploração
“Às 9 horas chegaram as primeiras patrulhas que tomaram as embocaduras  das ruas, indo uma até ao Castelo.
“Depois chegou o resto da força composta de 200 praças, 16 sargentos e 42 oficiais, que seguiu em direcção à praça de touros onde bivacou”.
O mesmo articulista informava também que a “Infantaria 5” estava estacionada no Turcifal e “outros regimentos em diversas localidades aqui perto” aguardando-se a sua chegada a Torres Vedras para os dias seguintes, assim como do quartel general “cujos alojamentos para oficiais e secretarias já estão prontos” (2).
O mesmo periódico local descreveu em pormenor a forma como as tropas, após a sus chegada. se distribuíram pela vila:
“O quartel general (…) instalou-se num prédio da rua Valadim (…).
“Na sede da Associação de Socorros Mutuos 24 de Julho, foi montada a estação central de telefones.
“A pagadoria ficou num prédio da rua Paiva de Andrada e o correio militar noutro, à esquina do Largo de S. Tiago.
“Na Porta da Varzea montaram-se os serviços de telegrafia sem fios, parque de automóveis e serviço de saúde . No prédio do sr.José PedroLopes a secção de camions.
“Nos armazéns das Covas, ficaram os depósitos de provisões.
“No campo de S. João foram montados dois hospitais de sangue.
“Na vila acham-se aboletados soldados e oficiais em grande número, e foi interessante e pitoresco o aspecto de Torres Vedras, no domingo de mercado, pela grande quantidade de famílias que vieram visitar oficiais e soldados.
“Os diversos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia acham-se bivacados em roda de Torres Vedras, pelo que se póde  dizer-se  que neste concelho estão concentradas tropas no efectivo de alguns milhares de homens.
“O matadouro  municipal desta vila foi tomado militarmente, não sendo ali abatidas senão rezes da administração militar (…)” (3).
(postal de Torres Vedras de Outubro de 1916, apelando à "mobilização).
 
As manobras militares duraram praticamente todo o mês de Outubro e mereceram a atenção da comunicação social, atraindo vários repórteres a Torres Vedras.
Entre eles o conhecido Júlio Dantas, um dos intelectuais mais consagrados do início do século XX, mas que passou para a história como o personagem caricaturado por Almada Negreiros no célebre “Manifesto Anti-Dantas”.
Deve-se a Júlio Dantas uma das mais pormenorizadas e interessantes descrições sobre as manobras militares neste concelho, onde fez, igualmente, um colorido retrato da paisagem deste concelho.
A reportagem foi publicada originalmente nas páginas do “Primeiro de Janeiro”, transcrita integralmente nas páginas de “A Capital” em 3 de Novembro de 1916 e, seguidamente, nas páginas da “Vinha de Torres Vedras”, na sua edição de 9 de Novembro desse ano, desconhecendo-se a data da visita, mas que terá sido nos finas de Outubro.É desta última versão que reproduzimos alguns trechos desse saboroso texto:
“Partimos de Torres Vedras às 10 da manhã num automóvel do Quartel General. A Divisão Pereira d’Eça estacionava ao norte, dispersa numa extensão de noventa quilómetros quadrados, ao longo de três grandes estradas divergentes. Tomámos pela estrada Torres-Lourinhã-Peniche.
“Uma admirável manhã de outôno, fresca, descoberta de sol, viçosa ainda dos chuveiros asperos da noite. Enquanto o focinho de ferro do Hudson cortava o ar, a brava paisagem estremenha ía-se desdobrando em lombas de pinhal e em chãos de vinhedo, luminosa, fecunda, gotejante de orvalho – para um lado até às arribas do oceano, raza de névoa; para o outro, de ondulação em ondulação, de montanha em montanha, até à serrania azul de Monte-Junto. A atmosfera scintilava. Passavam carros de lenha a caminho dos bivaques. De vez em quando, à beira da estrada, vermelho, fumegante, enorme, pojava o mamilo de barro dum forno de tijolo.
“Vinte minutos depois, estávamos em Paio Correia – uma mão cheia de casinholas caiadas. Perto, um veio de agua espelhava: era o Alcobrichel [sic]. Numa terra ceifada, como pinceladas de oiro, alastravam as tendas do primeiro bivaque: era o batalhão de infantaria 11. Começava a subir o fumo das cosinhas [sic].  Um carro alentejano despejava pão. (…) Bandos de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha branca ao pescoço, vinham de lavar-se no ribeiro .(…) “Seguimos. A estrada abria-se agora entre pinhais bravos (…); corria entre vinhas e vindimadas, onde fossavam e farejavam cães; talhava-se mais adiante, entre tratos de terra barrenta, cavada de barrocais, borbulhentos de cascalho, onde o automóvel saltava como uma péla. Principiaram a alvejar  (…) umas casas de adobe caiado. Era “A dos Cunhados”, centro de abastecimento, coalhado de carros de bois e de camions militares (…). Andando o casario, num campo á mão esquerda, estendia-se o bivaque do 3º grupo de baterias divisionárias (artilharia 3), numa grande mancha ruiva e buliçosa de gado (…). Dois soldados, a cara lambuzada de sabão, faziam  a barba, á beira da estrada. Uma nuvem de pardais atravessou diante do automóvel cujo leve chassis americano saltava, estremecia, devorava caminho a favor do vento. Principiava agora a região de grandes vinhedos. Ao longe, na encosta, matinando sinos, um povoado alegre branquejava: era o Sobreiro Curvo. De novo os pinhais ramalhavam; de novo surgiram os fornos de telha (…) e a primeira casa do Vimeiro (…). Estavam ali duas formações sanitárias – a ambulância nº2 e uma coluna de transportes - ; e, mais adiante, num vasto campo, perto das aguas lampejantes da Maceira, os dois batalhões de infantaria 1. Sentia-se já o ar do mar. A paisagem tinha agora uma expressão barbara de aridez, com as suas terras escalvadas, os seus pinhais longínquos ao nascente, as suas moitas cheirosas do alecrim bravo, rescendendo á beira da estrada. Quando chegámos a Toledo, em cujas casas se encontravam acantonados os sapadores mineiros, arrepiámos caminho, deixámos á mão esquerda Cabeça Gorda e o Casal do Grilo, voltámos a Paio Corrêa – e cortando a direito, entre sobreiros descascados e sangrentos, metemos à estrada das Caldas. Pouco depois, entravamos no Amial. Um povoado branco, alegre, cheirando a mosto, com as suas hortas verdes, o seus carinhosos beirais pojando de aboboras doiradas  (…). Logo adiante, (…) subindo por uma encosta de pinhal, um vasto bivaque de três batalhões, infantaria 16 e 17 (…) o Hudson do general seguiu, a direito do Ramalhal, onde vimos infantaria 5 e metralhadoras; daí para a Bogalheira, mais ao norte, onde em volta de um velho casal amarelo bivacava o 2º grupo de baterias divisionárias (artilharia 1); outra vez arrepiámos caminho, para alcançar a estrada Torres – Cadaval; metemos a um desvio aberto a picareta, numas terras barrentas; seguimos até Ermijeira, por entre grandes chãos de vinha, onde pareciam escorrer, ao sol, babas vermelhas de cobre; entramos na Quinta do Visconde, estacionamento de uma formação sanitária com tendas Bussoneau armadas; e, pela estrada do Cadaval adiante, entre barricas de mosto e carros de bois, jumentos bíblicos e cães hirsutos como lobos (…) chegámos ao Maxial, onde estacionava o 1º grupo de baterias; atingimos Malpique e a Mecejana, por cujas terras se estendiam, num mancha fulva  de tendas e de gado, o bivaque do 2 e a bela tropa algarvia de infantaria 4.
“Tínhamos percorrido, em três horas, uma extensão de 15 quilómetros (…) Quando chegámos a Torres, a poeira sufocava-nos, o sol ardia-nos a pela. É 1 hora da tarde”.
Os vários corpos de tropas da 1ª Divisão continuaram em manobras, entre  Torres Vedras e Caldas da Rainha, até ao principio de Novembro.
Já próximo dos finais de Outubro, numa correspondência datada do Ramalhal do dia 25, o repórter David Salsa de “A Capital” anunciava que “a testa da divisão, com as competentes patrulhas de exploração de cavalaria 4 e 5, sob o comando do sr.capitão Madureira está em Bombarral”, prevendo-se que avançasse daí S. Martinho do Porto, ultrapassando Caldas da Rainha, enquanto “o grosso da columna ultrapassasse já o Ramalhal, onde acantonam as forças de artilharia e infantaria”.
De Torres Vedras, onde ficou a “secção administrativa”, partiam todas as manhãs, o “comboio de abastecimento de víveres para Outeiro da Cabeça, Ramalhal e Bombarral, transportando os camions pão em grande quantidade que a Manutenção Militar fornece (…) além de outros comestíveis, predominando as conservas e as carnes frescas” (4).
A retirada da 1ª Divisão para Lisboa, encerrando as manobras militares, estava prevista para 8 de Novembro, mas foi antecipada para dia quatro, devido “ao mau tempo”.
Só no inicio de 1917 partiriam os primeiros contingentes para a Frente Ocidental.
As manobras militares da 1ª Divisão foram o mais próximo que os habitantes de Torres Vedras estiveram do ambiente da Primeira Guerra.
(1)    SALSA, David, “Nos campos de concentração –Os exercícios de combate nas linhas de Torres”, in “A Capital” de 8 de Outubro de 1916, pág.2;
(2)    “Vinha de Torres Vedras”  de 12 de Outubro de 1916;
(3)    “Vinha de Torres Vedras” de 19 de Outubro de 1916;
(4)    SALSA, David, “As Manobras da 1ª Divisão”, in “A Capital” de 27 de Outubro de 1916, pág.2;
(5)    In “Mobilisação da 1ª Divisão”, in “A Capital” de 4 de Novembro de 1916, pág.2.
(um resumo deste texto foi publicado nas páginas do jornal Badaladas na sua edição de 21 de Outubro de 2016)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Começam hoje as Festas da Cidade de Torres Vedras

Festas da Cidade de Torres Vedras: São Gonçalo de Lagos e São Martinho voltam a dar as mãos para acolher as Festas da Cidade de Torres Vedras que terão a sua décima terceira edição, a decorrer a partir de 27 de outubro (dia dedicado a este primeiro santo), e estendendo-se para além do dia dedicado ao segundo (terminando a 12 de Novembro).
 
Integrada nas festas está mais uma edição de "Acordeões do Mundo" (clicar para ver programa).

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Torres Vedras Há 55 Anos , em Outubro de 1961


Outubro de 1961
Prestes a terminar um ano charneira para a história do regime salazarista…
De facto, esse ano assinalou o início da guerrilha angolana, marcado por massacres de parte a parte, entre os africanos comandados por Holden Roberto e os brancos defensores do colonialismo.
Por cá, nessa altura, já o “Badaladas” se editava semanalmente.
Era notória o impacto dos acontecimentos “ultramarinos” nas páginas do jornal torriense, nos artigos de opinião de “notáveis” da terra em defesa do governo e na rubrica “Correio do Ultramar”, onde os jovens torrienses que partiam para a guerra em África comunicavam com familiares e amigos.
Aliás, a leitura atenta dessa correspondência, regularmente publicada nas página desse periódico local, é um documento fundamental para se conhecer o reflexo da guerra colonial entre a população torriense, nomeadamente entre a juventude que partia para essa guerra, à espera de quem as estude.
Por cá, no dia 9 de Outubro, era apresentado publicamente o “Rancho Folclórico do Varatojo”, formado no seio da Associação Cultural e de Beneficência de Santo António do Varatojo.
Em 10 de Outubro falecia um dos professores mais prestigiados da Escola Secundária de Torres Vedras, António Fivelim Costa, aos 67 anos.
No dia 16 de Outubro realizou-se a 1ª Feira de S. Gonçalo de Lagos, padroeiro de Torres Vedras, que coincidiu com a habitual feira mensal na última segunda-feira de cada mês.
A feira teve lugar na Porta da Várzea e incluiu a bênção do gado e a escolha dos melhores cavalo e égua, junta de bois e parelha de muares, com distribuição de prémios aos vencedores.
A Banda dos Bombeiros de Torres Vedras animou essa noite, actuando no Largo da Graça.
Nesse mesmo Largo da Graça teve lugar a inauguração, nesse mesmo mês de Outubro, da nova sede do jornal “Badaladas”, no sítio onde funcionou até há poucos anos.
A vida cultural torriense era então marcada pelas actividades do Cine Clube de Torres Vedras e pelo Suplemento Cultural do jornal “Badaladas”, com publicação mensal e de grande qualidade, quer gráfica, quer de conteúdo.
Na edição de Outubro desse mesmo suplemento António Augusto Sales entrevistava o Grupo de Teatro Procenium e Cordeiro Melo analisava a “Guernica de Picasso”, enquanto Claro Ceia e Ruy de Moura Guedes divulgavam os seus originais.
Mas a notícia mais importante desse suplemento era a referente à presença em Torres Vedras do Coro da Academia de Amadores de Música dirigido por Fernando Lopes Graça, uma iniciativa do Cine clube local e que muito preocupou o establishement ligado ao Estado Novo, cada vez mais preocupado com as iniciativas “subversivas” dessa associação.
António Augusto Sales, um dos torrienses de então mais tento à realidade local, publicou em 28 de Outubro, nas páginas do “Badaladas”, uma Carta Aberta à Comissão Municipal de Turismo, criticando as condições dos balneários da Praia de Santa Cruz, carta que fez corres muita tinta por parte de uma administração municipal pouco habituada a ouvir críticas sobre a sua actuação, numa época em que fazê-las era perigoso.
Foi assim o mês de Outubro de 1961, há 55 anos.
(texto baseado numa crónica lida em 1986 numa rubrica da Rádio Extremadura intitulada “Aconteceu no Oeste”).