quinta-feira, 17 de maio de 2018

O “Maio de 68”…em Torres Vedras


A única referência que encontramos em Torres Vedras ao Maio de 68 em França, durante esse mês, é uma referência indirecta, num artigo algo confuso, publicado nas páginas do jornal “Badaladas”, intitulado “Como Dialogar?”, e do qual transcrevemos as passagens mais significativas:

“(…) Não seria mais acertado procurar dialogar carinhosa e humildemente, embora com firmeza, com os dirigentes educacionais, administrativos, religiosos, sociais e até políticos, antes de agitar os subordinados daqueles?

“A insubordinação gera a desordem senão a revolta, e onde há desordem não pode haver paz, disso temos agora um flagrante e triste exemplo em França” [sublinhado nosso].

E rematava o mesmo anónimo articulista:

“A obra de reconstrução do mundo, que se impõe, só pode ser feita com o Espírito do Alto, sendo pois necessário caminhar de cima para baixo, para unir fraternalmente toda a Humanidade: dos pais para os filhos, dos patrões para os empregados, dos chefes para todos os restantes”.

Só nas edições de Julho desse ano aparecem as primeiras referências directas àquele acontecimento, em artigos de primeira página, um, na edição do dia 13, da autoria de Andrade Santos, intitulado "França: um teatro de Guerra" e outro na edição do dia 20, intitulado "A Nova Revolução Francesa".

Apesar da censura, a imprensa local da época (que no caso se restringia à edição semanal do jornal “Badaladas”) não vivia alheada da situação internacional. Exemplo disso é o caso de um vigoroso artigo condenando o racismo nos Estados Unidos [recorde-se que em 4 de Abril desse ano tinha sido assassinado Martin Luhter King] e de outro referindo a situação no Vietname, dois temas que, de algum modo, estavam relacionados com a agitação estudantil em França e um pouco por todo o mundo ocidental.

Da Guerra Colonial, na qual o Estado português estava então envolvido, motivo para a agitação estudantil em Portugal que atingiu o seu auge no ano seguinte, a censura apenas deixava passar a publicação de inócuas cartas de soldados, publicadas nas páginas do “Badaladas”.

Torres Vedras vivia nessa altura um dos períodos mais apagados, no ponto de vista cultural. Salazar ainda não tinha caído da cadeira, facto que só ocorreria a 3 de Agosto, e o cinzentismo era imposto a todas as tentativas mais ousadas de criatividade cultural. Ainda estava fresco o caso do Cine Clube de Torres Vedras, a quem fora imposta uma comissão administrativa seis anos antes, levando à perseguição politica dos jovens que então tinham ousado fazer diferente.

A única excepção a esse cinzentismo era o Pelouro Cultural da Física que iniciava então um período de crescente actividade (que viria a conhecer um destino parecido ao do Cine Clube anos depois).

A Associação de Educação Física, então dominada por homens próximos da oposição republicana, realizou, nesse mês de Maio, uma cerimónia para comemorar a abertura das propostas da empreitada da primeira fase das obras para a sua nova sede, que é a actual.

Nesse mês de Maio de 68 o jornal “Badaladas” completava 20 anos de vida e publicava mais 4 páginas do seu histórico Suplemento Cultural, que então, em parte por acção indirecta da censura, em parte pelo afastamento, por várias razões, dos seus primeiros mentores, passava por uma fase menos criativa, menos irreverente  e menos interessante.

Outros acontecimentos marcaram esse mês de Maio de 68 em Torres Vedras, como o fim, em 20 de Maio, da primeira campanha de escavações na Gruta do Cabeço da Rainha, junto ao lugar da Maceira, que tinha contado com grandes nomes da arqueologia portuguesa, como Farinha dos Santos, Veiga Ferreira e o abade Jean Roche, para além do conterrâneo Leonel Trindade.
Essas escavações permitiram que pela primeira vez  se observasse um terraço fluvial numa gruta, possibilitando a datação geológica dos seus níveis.

Nessas escavações foram identificados níveis de ocupação do Paleolítico Superior e outra mais antiga do Paleolítico Médio.

Outro acontecimento localmente marcante foi a realização em Torres Vedras, em 26 de Maio, do Dia da J.O.C. [Juventude Operária Católica]  Internacional que contou com a presença de jovens católicos de todo o país.

Não o sabemos, mas é muito provável, dado o carácter cada vez mais progressista e crítico da JOC em relação às condições sociais e à guerra colonial, que nesse encontro os seus participantes  tivessem falado do Maios de 68.

Foi assim, num clima de paz aparente, mas com pequenos sinais que anunciavam um novo tempo, que se passou o Maio de 68…em Torres Vedras.

(NOTA: a base para a elaboração deste texto foi a leitura das páginas do jornal “Badaladas” no mês de Maio de 1968. O texto original teve como objectivo a sua utilização num programa de rádio em 1988, sendo agora apresentado com ligeiras alterações, recorrendo igualmente a um artigo de Carlos Guardado, que se encontra na página on-line da Câmara Municipal de Torres Vedras, que pode ser lido AQUI)

terça-feira, 8 de maio de 2018

TURRES VETERAS XXI - 11 a 12 de Maio de 2018.

Tem início na próxima 6ª feira, a partir das 14 horas, a 21ª edição dos encontros de História Turres Veteras.

Os encontros encerram no dia seguinte, pelas 17.30, com o lançamento de "Torres Vedras - Nova História Local", uma obra colectiva que inclui as comunicações do ano passado, que percorreu a História Torriense ao longo dos séculos.

Este Turres Veteras XXI tem lugar no auditório dos Paços do Concelho e o programa pode ser consultado em baixo.

terça-feira, 10 de abril de 2018

A Vida Torriense nos Caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) (1885-1890) - Abril de 1888



O primeiro dia de Abril desse ano distante de 1888 foi um Domingo de Páscoa. Por esse motivo “a Fanfarra da Associação 24 de Julho de 1884 percorreu a villa (…) em cumprimento de boas festas a diversas pessoas “(1).

Para esse mesmo dia estava previsto o início de um novo horário de trabalho para o comércio local, objectivo que não terá sido cumprido, a julgar pela seguinte notícia:

“Uma parte dos commercintes d’esta villa tinha resolvido acceder ao pedido dos seus empregados, fechando os estabelecimentos às quatro horas da tarde, nos domingos. Era mais uma victória do progresso, ganha pacificamente, que honrava por igual aquelles que o solicitaram e os que concederam.

“Esta regalia devia começar no domingo de Páscoa. Não sucedeu, porém, assim, cremos que por circunstâncias independentes de boa vontade de alguns dos lojistas que assignaram do melhor grado a petição dos caixeiros.

“Os estabelecimentos que à hora aprazada fecharam, foram os dos srs. Bernardino António Silva Cardoso, Emygdio José da Costa, Ferreira & Sousa, e José Gonçalves Carvalho” (2).

A principal actividade económica de então era a agricultura, e o principal produto da região o vinho. Um pequeno quadro dessa actividade era descrito nos seguintes termos:

“Os trabalhos das vinhas estão todos acabados e a rebentação surge fluente nas vinhas sadias.

“Por toda a parte se observam os grandes estragos da phylloxera. Agora que as vinhas já deram a primeira demonstração da sua força, vê-se que algumas estão mortas, tendo feito as suas despedidas com a colheita passada” (3).

Por sua vez apostava-se na melhoria da rede viária e no desenvolvimento do caminho de ferro como soluções para melhor escoar a produção local.

Contudo, nem tudo corria bem para o cumprimento desse objectivo:

“(…) o assumpto da conservação das estradas carece de séria e especial atenção do sr. ministro das obras públicas. Isto não pode aguentar-se muito tempo. Os concelhos de Torres e Alenquer, que nós melhor conhecemos, estavam bem servidos de estradas districtaes, mas os invernos e a falta de concertos, por ter sido suprimida a verba destinada à conservação, estão pondo as viações em estado lastimosos e impossível (…)” (4).

Também numa carta dirigida ao jornal “A Semana”, um leitor queixava-se de ser “lastimoso o estado em que se acham os caminhos dos logares da Ermegeira, Abrunheira, Ramalhal e Amial para a estação de caminho de ferro do Rmalhal (…).

“Havendo n’estes logares (…) adegas importantes de vinho e outras mercadorias a transportar para a estação do Ramalhal, não o podemos fazer por causa dos péssimos caminhos, não nos servindo de utilidade nenhuma o haver estação no Ramalhal, porque temos que ir à estação de Torres, que é mais do dobro do caminho, mas ao menos aproveitamos a estrada real e podemos conduzir dois cascos de cada vez, enquanto que para a estação do Ramalhal, nem um, mesmo em carro de bois, porque corremos o risco de nos ficar carro e bois submergidos na lama!

“De que nos serve uma estação de caminho de ferro, sem termos estrada? De nada (…)” (5).

Igualmente mal servidos estavam os habitantes de Torres Vedras que se quisessem deslocar para a estação do caminho de ferro desta localidade. Por isso manifestavam preocupação com a construção de vias que ligassem o centro da vila àquela estação:

“Vão ser remetidos para a administração do concelho os autos das novas expropriações feitas para o alargamento da Avenida do caminho de ferro d’esta villa [ a actual Av. 5 de Outubro], alargamento que acaba de ser approvado pelo ministro, como a câmara requereu, por iniciativa do deputado do círculo, que em vez de 8 pediu 16 metros de largura para aquela via pública (…) “ (6).

Outra notícia dava conta que na “terça-feira fez-se a medição e iniciaram-se os cortes a fazer nos terrenos para a nova rua que a Câmara projecta abrir, a fim de ligar a Praça Nova com a futura avenida” (7) [julgamos tratar-se da actual Rua Tenente Valadim].

Contudo, apesar das alterações que o caminhos de ferro estava a provocar na fisionomia urbana de Torres Vedras, era evidente o descontentamento com o facto de então apenas se realizar uma viagem de comboio ascendente diariamente.

Eram também divulgados alguns números sobre o movimento da linha férrea no concelho:

“Durante o anno decorrido de Maio de 1887 até igual mez de 1888 a receita realizada em dinheiro na estação do caminho de ferro d’esta villa, foi de 22.000$000 réis, números redondos. Não entram n’este rendimento as remessas de mercadorias a pagar nas estações  que se destinam, o que é importantíssimo, especialmente em vinhos” (8).

“No mez de Janeiro transitaram pelas linhas férreas de Cintra a Torres 10:372 passageiros e 3:444 toneladas de mercadorias, produzindo 8:225$144 réis.

“De Torres à Figueira e Alfarellos, os comboios transportaram no mesmo período 4:216 passageiros e 2:035 toneladas de mercadorias, dando de receita 3.559$714 réis” (9).

Terminamos esta crónica como começámos: referindo uma festa de cariz religioso, a reinauguração da Capela do Senhor Jesus Morto no Turcifal, em 29 de Abril de 1888, descrita neste termos:

“Foi uma verdadeira surpreza a enorme quantidade de gente que no domingo affluiu ao logar do Turcifal. A festividade era, por assim dizer, extraordinária, pois, como havíamos já noticiado, celebrava-se a inauguração da antiga capella que fôra reedificada, e onde ficou agora o Senhor Jesus Morto, que esteve provisoriamente na igreja matriz, emquanto se prepararam as obras.

“De todos os logares comvisinhos e também de muitos pontos distantes concorrerm famílias, fazendo-se conduzir por toda a espécie de vehiculos e animaes de carga.

“O espaço largo onde se ergueu o templo de Santa Maria Magdalena, apresentava um aspecto imponente.

“Ao descair a tarde saiu a procissão em que era conduzido o esquife com a veneranda imagem do Senhor Morto, e a da Virgem, sendo muito acompanhadas de Irmãos.

“Na frente tocava a Fanfarra de Villa Franca do Rosário, que espontaneamente appareceu a encorporar-se no préstito, e na rectaguarda a philarmónica Torreense, fechando com uma força de 16 praças de infantaria 11, comandada pelo sargento.

“Percorreu o logar, dirigindo-se à pequena ermida que está muito alindada, onde ficaram as imagens: Em seguida orou o ver. Chagas, e depois o préstito dispersou, começando então a debandada que tinha o pittoresco  matiz das variadas conduções, desde o veterano jumento ao pesado carro de bois, desde a clássica carroça de muares até à elegante “caleche” particular.

“De Torres Vedras a Concorrencia era bastante. A tarde conservou-se bonita e convidativa ao passeio.

“Os principaes moradores do Turcifal receberam com a sua proverbial amabilidade os convidados, que retiraram muito satisfeitos pelo modo como em tudo sobressaiu a festividade do domingo n’aquelle logar” (10).

Com descrições como esta, não era preciso existir máquina fotográfica…

(1)    – in Voz de Torres Vedras, 7 de Abril de 1888;
(2)    –idem, idem;
(3)    – in A Semana de 12 de Abril de 1888;
(4)    – idem, idem;
(5)    –in A Semana de 19 de Abril de 1888;
(6)    – in A Semana de 5 de Abril de 1888;
(7)    –in Voz de Torres Vedras de 7 de Abril de 1888;
(8)    – in “A Semana” de 12 de Abril de 1888;
(9)    – in Voz de Torres Vedras de 7 de Abril de 1888;
(10)                       – in A Semana de 3 de Maio de 1888.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Lançamento do Livro "O Socialismo e o PS em Portugal", na Biblioteca Municipal, Sábado pelas 18 .30:


Sinopse do livro
“Apesar da incipiente industrialização, as ideias socialistas chegaram ao nosso país nos anos 50 do século XIX quando ainda se viviam as sequelas da Patuleia, guerra civil que contribuiu para abalar os alicerces da monarquia. Viriam a surgir, assim, as primeiras associações visando “os melhoramentos das classes laboriosas”, os primeiros periódicos e textos doutrinários. Em 1875, mesmo antes de que isso acontecesse noutros países mais desenvolvidos, foi fundado o Partido Socialista. Figuras como Antero de Quental e José Fontana fariam com que o socialismo entre nós tivesse, desde logo, características muito especiais no que concerne à sua componente libertária e ética. Isto não impediria que também aqui se repercutissem as divisões programáticas em curso no resto da Europa o que, no contexto da sociedade portuguesa, ajudaria à hegemonia das ideias republicanas e do anarco-sindicalismo no movimento operário. Durante a I República os socialistas tiveram expressão modesta a nível sindical e parlamentar, apesar de chegarem a estar presentes em governos e terem contribuído para reformas significativas.
 “Não admira, pois, que durante o Estado Novo o socialismo se tivesse amalgamado com a oposição democrática republicana, apesar de sempre existirem tentativas no sentido de afirmar a sua identidade. Até que, em 1964, Mário Soares, Tito de Morais, Ramos da Costa, entre outros, criaram a Acção Socialista Portuguesa, embrião do actual Partido Socialista fundado em 1973. Este, após o derrube da ditadura a 25 de Abril de 1974, tornar-se-ia a força decisiva para a construção do Portugal democrático dos dias de hoje e continua a desempenhar o papel fulcral que é conhecido. Recorrendo a vários autores de diversas formações académicas, pretende-se com este livro recordar o passado do socialismo português, para melhor analisar o seu presente e perspectivar o futuro”.
 Participam nesta edição: Ângela Montalvão Machado; António Campos; Antonio Muñoz Sánchez; António Reis; Fernando Pereira Marques (coordenador); Joaquim Palminha Silva; Paulo Ferreira da Cunha; Miguel Coelho; Nuno Miguel Jesus.

Dados Biográficos 
Fernando Alberto Pereira Marques , nascido 16 de abril de 1948.  Professor Universitário. 
Foi líder da LUAR antes do 25 de Abril, tendo conhecido a prisão politica e o exílio.
Depois do 25 de Abril continuou nessa organização até à sua extinção, aderindo posteriormente ao PS, tendo sido deputado.
Cargos que desempenha: 
  Coordenador-adjunto
  Membro do Conselho Diretivo
  Diretor-adjunto da revista a "Finisterra" 
Cargos exercidos: 
  Membro do Conselho de Informação para a Imprensa
  Dirigente Partidário
Obras Publicadas: 
  "Contrapoder e revolução" 
  "Exercito e Sociedade em Portugal" 
  "Um Golpe de Estado -Contributos - Estudo da Questão Militar" 
  "O elogia da enquietude" 
  "A outra guerra" 
“A Praia sob a Calçada – Maio de 68 e a Geração de 60”
“Uma Nova Concepção de Luta”

Títulos académicos e científicos 
DOCTORAT D'ETAT EM SOCIOLOGIA (UNIV. DE AMIENS - FRANÇA) 
DIPLOMA DA ECOLE DES HAUTES ETUDES EN CIENCES SOCIALES 
(Dados recolhidos do site da Biblioteca Municipal de Torres Vedras)´









sexta-feira, 16 de março de 2018

Debate sobre a Requalificação da Praia Formosa, em Santa Cruz


Uma das polémicas do momento em Torres Vedras está relacionada com as  obras de "requalificação" da Praia Formosa, em Santa Cruz.

A contestação foi de tal ordem que o município se viu na obrigação de realizar uma sessão pública de "esclarecimento".

Essa sessão teve lugar no passado dia 21 de Fevereiro, no Pavilhão do aeródromo de Santa Cruz, decorrendo já com as obras em execução.

A revista Festa e o seu director Carlos Rosa disponibilizaram no youtube a divulgação dessa sessão que apresentamos em baixo.

A sessão, mal divulgada, contou contudo com um público atento e muito critico.

Visualizar este filme é um bom ponto de partida para se conhecer os argumentos da Câmara e os da população que contesta a obra.

Mais uma vez cometeu-se o erro de iniciar uma obra polémica sem um debate prévio, fazendo-se o contrário, iniciar a obra e, depois da contestação, realizar um debate público com a obra numa fase quase irreversível.

O som nem sempre é o melhor, existindo algumas parte nada ou pouco audíveis, mas este video é um bom ponto de partida para que cada um forme a sua opinião sobre o assunto.

quarta-feira, 7 de março de 2018

A Vida Torriense nos Caracteres da Imprensa Local (finais do Século XIX) (1885-1890) - Março de 1888.


Março 1888

“Foram-se !

“Andorinhas da arte, não poderam suportar as neves de Fevereiro e o frio da indiferença publica.

“Embrulhados nos mantos reaes de paninho bordado a lantejoulas, pozeram-se ao caminho com uma bagagem de dramas e uma perspectiva de miséria, seguindo a estrella dos bohemios, para irem levar ao seio das multidões a malícia da Nitouche e o surdo ranger de dentes de D. Afonso IV” (1).

Com estas palavras metafóricas começava a crónica de Carlos Velloso nas páginas de “A Semana”, nesse distante mês de Março de 1888, referindo-se à retirada de Torres Vedras da companhia teatral que aqui havia permanecido alguns meses.

Carlos Velloso, curioso cronista, de estilo muito peculiar na Torres Vedras oitocentista, prosseguia essa crónica com estas palavras:

“A brazeira voltou ao centro da sala, a chinela forrada, com bordados, tem na meia escuridão, por baixo da secretária, uns brandos fulgores de missangas: o “Diário de Notícias” retomou o seu império, e na leitura dos versos do sr. Luís d’ Araujo faz-se tranquilla a digestão das torradas, livre já da peste dos maus hábitos, lançada a despeza com theatro na coluna dos ganhos e perdas.

“O Convento da Graça vae perdendo o feitio pavoroso da Bastilha, já não se lhe suppõe  dentro um Minotauro que devora tostões e – quem poderia crer ? – já olhos humanos contemplam, sem estremecer, as taboas desunidas, meio enterradas, que eram ponte oscillante e perigosa n’aquelle patíbulo da riqueza (…)” (2).

O citado Convento da Graça, que serviu de sombra às noites de teatro, era o centro de outras realidades da época, como se pode ler noutra notícia publicada no mesmo jornal:

“Vae ser provisoriamente mudado o hospício dos expostos, n’esta villa, da antiga casa que se vendeu, para um edifício mais amplo e confortável, até que se realizem as obras no convento da Graça, onde ficará definitivamente instalado” (3).

O mês de Março de 1888 foi mês de temporais que se fizeram sentir principalmente no estado em que deixaram os velhos caminhos que ligavam Torres Vedras aos concelhos vizinhos e as ruas da villa:

 “A pouca àgua que caiu nos últimos dias da semana passada bastou para tornar intransitáveis os caminhos, convertendo-se em verdadeiros lamaçaes, onde os carros se enterram até aos eixos (…).

“Só quem anda na estrada conhece os dannos que provém de similhante desmazelo, demais na presente ocasião, quando se procede às tiradas do vinho.

“Aqui mesmo na villa temos um espelho à nossa frente.

“O caminho da estação, aquelle decantado caminho a que tantas vezes nos temos referido, está n’um estado tal, que bem demonstra a forma porque se zomba do interesse publico, mangando com as povoações.

“Aquilo não é um caminho, principalmente apenas caem algumas gotas de chuva: - é um mar de lama, um precipício, incapaz de servir para o trânsito geral.

“Apenas ali se chega logo se adivinha o serviço de uma via férrea, que tem os aterros especados com madeira, onde os wagons, velhos e ameaçando desconjuntar-se, andam à aposta, no que se refere a velocidade, com os carros dos almocreves!

“Realmente, estamos abaixo das povoações mais insignificantes, pelo abandono a que somos votados (4)”.

Então, como hoje, a linha do Oeste parecia condenada a prestar um mau serviço aos seus utentes (embora fosse então um dos mais prometedores e modernos meios de transporte), situação que não impedia a companhia de obter lucros significativos para a época:

“Reunindo as receitas d’este novo caminho de ferro, desde 1 de Janeiro até 12 do corrente [ mês de Março] , vemos que o seu produto monta a 25:901$010, pertencendo à Linha de Cintra a Torres 18:424$010 e à de Torres a Leiria 7:477$000.

“Com tão boas receitas bem podia a companhia mandar esphaltar o recinto da estação d’esta villa, ou mac- adamisar os caminhos que conduzem não só a esta, mas a outra estações da linha, os quaes estão intransitáveis, a ponto de terem já causado alguns desastres (5).

Mas nem tudo era criticável em relação àquela companhia, pois, entretanto, anunciava-se o ajardinamento da estação do caminho de ferro de Torres Vedras “no espaço que medeia entre o edifício e as arrecadações de material circulante”.

A recente inauguração do caminho de ferro não impediu o surgimento de um novo estabelecimento de trens de aluguer, propriedade de Januário Vieira, “habil cocheiro muito conhecido em todo o Concelho de Torres” (6).

O saneamento básico era outra das preocupações da época:

“A mudança da estação faz-nos ocorrer a necessidade de abastecer de água a nossa villa, evitando as dificuldades dos annos anteriores.

“A água que temos não é boa, nem sufficiente, todos o sabem (…).

“E já agora lembramos à Câmara a conveniência, de proceder ao saneamento da povoação, fazendo com que se observem os preceitos salutares da hygiene.

“Actualamente, a nossa villa, com as montureiras, os canos rotos, as ruas sujas, não peca por aceiada, nem attraente  (…)” (7).

Um dos melhoramentos então recentemente inaugurado, a iluminação a gaz, atravessava algumas dificuldades, que acabaram por levar ao regresso `da velha iluminação a petróleo, só abandonada em 1912 com a inauguração da iluminação eléctica:

“Desde terça-feira [6 de Março] que a villa é iluminada a petróleo. A naphta foi por algum tempo posta de parte “ (8).

Outro melhoramento então anunciado para o concelho foi a instalação de uma linha telefónica particular, ainda não inaugurada por razões burocráticas:

“Está prompta há mais de um mez o telefone que deverá funcionar entre S. Domingos de Carmões e o Sobral de Mont’ Agraço, sem que ainda chegasse ordem official para a sua abertura ao público, que ainda não poude utilizar este melhoramento com que foi contemplado” (9).

Uma última nota sobre este mês de Março de 1888 para referir que se anunciava para o primeiro dia de Abril o encerramento dominical dos estabelecimento comerciais, a partir das 4 horas da tarde, iniciativa que muito contribui para alargar os tempos livres dos torrienses, alterando muitos hábitos dos seus habitantes no final do século XIX.

( a partir de texto por nós publicado no jornal Badaladas em 25 de Março de 1988).

  • (1)    – in A Semana de 1 de Março de 1888;
  • (2)    – idem, idem;
  • (3)    –idem, idem;
  • (4)    – in Voz de Torres Vedras de 3 de Março de 1888;
  • (5)    –idem. Idem;
  • (6)    – in Voz de Torres Vedras de 24 de Março de 1888;
  • (7)    – idem, idem;
  • (8)    – in Voz de Torres Vedras de 10 de Março de 1888;
  • (9)    – in A Semana de 22 de Março de 1888.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Material do Ephemera sobre as Eleições Norte-Americanas em Exposição em Torres Vedras

No próximo Sábado, 3 de Março, às 18.30,  é inaugurada em Torres Vedras, na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, a exposição "Propaganda nas Eleições Presidenciais dos EUA".

Depois de ter passado por Lisboa, Porto e Viana do castelo, a exposição tem por base a documentação recolhida por José Pacheco Pereira para o projecto Ephemera, e, embora incida principalmente sobre as eleições de 2016, faz uma retrospectiva sobre as eleições presidenciais nos Estados Unidos desde a década de 30 do Século passado.

Na inauguração Pacheco Pereira estará presente para nos guiar na exposição.

Uma excelente oportunidade para conhecer melhor um dos mais característicos sistemas eleitorais, que está patente ao público na Biblioteca até 7 de Abril.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A “Batalhôa” de 9 de Fevereiro de 1868 em Torres Vedras, reflexo local da “Janeirinha”

(Foto antiga dos Paços do Concelho, um dos "palcos" da "Batalhôa") 
Na sua conhecida monografia sobre Torres Vedras, Júlio Vieira refere a rebelião popular de 9 de Fevereiro de 1868, que ficou popularmente conhecida por “batalhôa” ou “queima dos papéis”. 
Provavelmente baseado na memória oral, recolhida entre muito torriense que, à data da publicação daquela obra, em 1926, ainda tinham memória daquele acontecimento, aquele autor torriense faz uma descrição bastante pormenorizada daquela revolta, donde respigamos algumas passagens: 
“Oito dias antes roubaram o mapa da repartição da fazenda” então situada na Rua da Olaria, no edifício onde funcionou a escola secundária, mapa esse que “foi queimado próximo à Fonte Nova”. 
Mas foi no dia 9 de Fevereiro que se registou o grande levantamento popular, quando “uma massa compacta de populares em número não inferior a 3:000 assumou à ponte da Mentira e deu entrada nesta vila. Eram povos de Aldeia Grande, Machial e Ermigeira, das freguezias do Ramalhal e de Monte Redondo, que se dirigiram sem resistência, e de surpresa, à repartição de fazenda, onde, em grande borborinho, arrancaram o arquivo e o lançaram à rua, emquanto os cá de baixo deitavam fogo à papelada. A administração do concelho, que era no mesmo edifício, sofreu egual sorte” (1). 
A versão do administrador do concelho, registada no livro de registos de correspondência com o governo civil, completa, divergindo nalguns pontos, a descrição de Júlio Vieira: 
Pelas “oito horas da manhã” foi “invadida esta villa por mais de mil homens quazé todos das Freguezias da Dos Cunhados, Ramalhal, Maxial, Monte Redondo, e Matacães, deste concelho, e alguns do Vimeiro, Concelho da Lourinhã, vindo pela maior parte armados com armas de fogo, chuços, baionetas, foices roçadouras, e páos forrados. A força armada que tinha sido requisitada pelo Administrador (…) foi por elle mandada collocar à entrada da villa do lado do Norte”, mas não conseguiu deter a marcha dos populares, devido à grande superioridade numérica destes. (2). 
Retomando a descrição de Julio Vieira, da administração do concelho “dirigiram-se os amotinados para o Largo da Graça, onde existia a recebedoria nas lojas do prédio da família Fivelim”. 
O “recebedor” de então, Francisco Tavares de Medeiros, ainda conseguiu esconder no sótão do edifício parte do arquivo. 
Esse, que vivia por cima da casa da repartição, vendo esta arrombada, pediu da janela “que não fizessem barulho porque tinha a esposa de cama, doente. Ou porque o pedido surtisse efeito, ou porque, de facto, poucos fossem os papéis ali existentes, o certo é que a multidão limitou-se a atirar para a rua com maços de papéis que não chegaram a ser queimados”. 
De seguida a população dirigiu-se à Câmara Municipal, mas aqui, “pondo-se em frente dos paços do concelho algumas individualidades de destaque desta vila, conseguiram pela persuasão e pela exortação, o que a força não poude fazer”, argumentando com pedidos de calma e para que “não levassem por diante tal intuito, pelo prejuízo que a todos acarretava a perda do arquivo da camara”. 
Na descrição do Administrador do Concelho, o assalto à Câmara foi travado porque ele mandou colocar “à porta da Câmara a força armada”. 
Depois disto, e correndo a notícia de que estavam a chegar forças militares vindas de Mafra, a população dispersou. 
Aqueles acontecimentos foram um reflexo local tardio da conhecida revolta da “janeirinha”  (3) e terá tido lugar naquela data, talvez porque o dia 9 de Fevereiro coincidia com o dia da eleição da Câmara Municipal, que não se pôde efectuar, acabando por ter lugar em 8 de Março (4). 
O motivo que os revoltosos deram ao Administrador do Concelho quando chegaram ao edifício dessa administração foi querer queimar os registos das contribuições de 1867 que eles consideravam “exageradamente augmentados, e que não as podião pagar, mas que estavam prontos a paga los segundo o rendimento collectavel por anteriores matrizes”. 
Na carta ao Governador Civil o mesmo administrador do concelho, reforçava “que o motivo que levou aquellas gentes a praticar taes factos d’um perfeito vandalismo foi o exagerado aumento do rendimento collectavel nas últimas matrizes que fez augmentar o contingente distribuído a este concelho de 9:445:800 réis que foi no ano de 1866, a 16:633:270 e a serem collectados, por isso, quasi todos no dobro do que  tinhão sido no anno anterior, e muitos no triplo”. 
Segundo o mesmo relatório “não houveram victimas, nem ferimentos, nem roubos”, sendo os estragos registados os documentos queimado e algum mobiliário das repartições assaltadas. 
Também a Câmara referia alguns dos motivos da revolta: 
“Se houve os lamentáveis acontecimentos do dia 9 de Fevereiro nesta villa – sabe-se que o principal motivo foi a elevação do rendimento collectável nas Matrizes prediais; é verdade porem que se excederam gritando contra todos os tributos, e foram a caza do recorrente pedir-lhe os papéis do cacifo, e queimaram os que a mulher lhes deitara da janella. Nada porem destruio relativamente à renda que havia sido arrematada no Domingo anterior 2 de Fevereiro. O povo gritava contra as medidas cacifadas, ou cerceadas, e não contra o imposto dos cinco réis; -porque é o taberneiro vendedor quem a deve pagar, e não o povo. (…)”(5). 
No dia 10 de Fevereiro, pelas 4 horas da tarde “chegou a esta Villa a força de Cavalaria, e pelas cinco e meia a de Caçadores” (6). 
A presença dessas força militares e a sua acção em perseguição dos lideres conhecidos daquele movimento popular, nas freguesias rurais a norte da vila, deu origem a um conjunto de 15 artigos, intitulados “Quinze dias em Torres Vedras”, publicados no jornal “O Diário Popular” entre 2 de Julho e  19 de Agosto de 1868 da autoria de um dos militares para aqui destacado, A. Osório de Vasconcelos (7). 
As actas da Câmara de Torres Vedras, nos meses que se seguiram àquela rebelião, reflectem igualmente algumas das consequências desse acontecimento. 
Na sessão de 2 de Março registava-se a “impossibilidade em que se achava [a Câmara] de poder occorrer às suas despesas ordinárias e extraordinárias no exercício do anno económico corrente, por terem falhado a maior parte dos seus rendimentos, como do imposto municipal de cinco reis em cannada de vinho, e dez  reis em kilograma de carne, que se não tem podido arrematar por falta do lançador e pela queima que sofreu de documentos de cobrança no dia nove de Fevereiro último” (8). 
Não deixa de ser curioso e o impacto psicológico daqueles acontecimentos evidente quando em sessão de 18 de Março se refere um requerimento enviado à Câmara por Augusto Rafael de Miranda, “arrematador do imposto municipal de cinco reis em canada de vinho”, pedindo a rescisão das suas funções, argumentando que “os tarbeneiros, depois dos acontecimentos que tiveram lugar nesta villa no dia 9 de Fevereiro ultimo, não teem querido fazer avenças pelo vinho que vendem por não ser permittido, como era costume vender-se o vinho por medida cacifada” (9). 
Em 26 de Março esse assunto volta a ser abordado, já que, apesar de indeferido, o pedido de demissão daquele “arrematante do imposto municipal cacifo”, um imposto que cobrava 5 réis por cada 145 cantilitros de vinho, Rafael de Miranda insistia na rescisão, vindo à Câmara pessoalmente para justificar a sua decisão, acabando por confessar que “a maior de todas as razões era o medo com que ficou do povo desde o fatal dia 9 de Fevereiro ultimo, em que lhe foi a casa procural-o, como rendeiro do cacifo pedindo os papéis que tinha desta renda para os queimar, e pos isso era o seu maior desejo livrar-se deste contracto”. 
A Câmara recusou aquela demissão, argumentando com o facto de os taberneiros já terem manifestado à Câmara a decisão de pagarem aquele imposto, mostrando que então já se registava alguma normalidade (10). 
O administrador do concelho anunciou, no documento já referido, a abertura de um inquérito, mas, segundo Júlio Vieira “nunca se apuraram responsabilidades” (11). 
A “Batalhôa”, reflexo local da “janeirinha”, foi um dos acontecimentos que mais marcou a memória colectiva dos habitantes de Torres Vedras, até pela destruição que provocou na valiosa documentação da administração do concelho e na documentação fiscal da repartição da fazenda. 
(1)    VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, T. Vedras 1926, pp.224 e 225;
(2)   Livro de Registos da Correspondência do Administrador do Concelho de Torres Vedras para o Governador Civil de Lisboa, de 1868, registo nº 3  de 11 de Fevereiro;
(3)  para contextualizar  esse acontecimento histórico aconselha-se a leitura de A “Janeirinha” e o Partido Reformista – Da revolução de Janeiro de 1868 ao Pacto da Granja, da autoria de Carlos Guimarães da Cunha, ed. Colibri, Lisboa 2003;
(4)  de acordo com o ofício do Governador Civil citado e transcrito na sessão camarária de 2 de Março de 1868, Livro nº 30 das Actas da Câmara (1864-1873), f.106 e 106 verso;
(5)    Livro nº 30…, sessão de 26 de Março de 1868;
(6)   Livro de Correspondência do Administrador do Concelho para o Governador Civil, registo nº 2 de 10 de Fevereiro de 1868;
(7) este “folhetim”, cujo conhecimento de cópias me foram oferecidas pelo investigador Rui Prudêncio, merecia uma edição anotada;
(8)     Livro nº 30 de Actas Câmara (1864-1893),f.108;
(9)     Livro nº 30…, sessão de 18 de Março,f 113 e 113v;
(10)   Livro nº 30…, sessão de 26 de Março de 1868.
(11)   VIEIRA, Júlio, Ob.Cit.;.   
(Um resumo deste texto foi publicado na secção "Vedrografias" do Jornal "Badaladas", em 16 de Fevereiro de 2018) .